Dissertações e relatos de dois taberneiros sobre coisas mundanas...e não só.

27
Jul 09

Boas noites e bons ventos…

 

Estava o tempo quente e abafadiço…

 

Resolvi-me a vir fumar um paivante feito á mão á porta da taverna. É um prazer que tenho, um dos poucos infelizmente, portanto não me digam que é um vício lastimoso…estarão a tentar tirar um pouco da paz que os dias ainda me vão guardando!

Era domingo, cerca das três e qualquer coisa da tarde, e as gerações trajavam farpelas e semblantes a condizer com a circunstância – a benta volta de Domingo tão tipicamente portuguesa.

O panorama fedia a rectidão e a moralismo com personagens a condizer dentro das suas inestimáveis viaturas motorizadas, impecavelmente limpas…

Seria uma tarde tão aborrecida e fastidiosa como qualquer outra tarde de Domingo, não fosse o episódio que agora vos vou passar a narrar que, infelizmente, revela muito de nós como povo, raça e alma.

Não me interroguem como, nem porquê, ou tampouco onde mas, numa praça ou largo, de forma circular, onde desembocam várias ruas e o trânsito se processa em sentido giratório, vulgo rotunda, no centro da minha vila, dois indivíduos lançam-se numa cena de pugilato merecedora de um qualquer clássico da ESPN. Figuradamente, terá sido devido a uma qualquer lerda contenda sobre preferências de espaço no panorama que se intitula de “trânsito urbano”, e que tantas historias tem feito brotar nos matutinos deste nosso pais, muitas delas com desfechos deveras deploráveis…

 

Dois indivíduos esmurravam-se violentamente no centro da arena redonda, sem árbitro, sem regras, sem que ninguém se honrasse a interromper tal representação.

 

Ninguém…

 

Seria com temor de arrasar uma brilhante historia para contar aos amigos lá do café, aos companheiros de trabalho, mas a verdade é que ninguém avançou. Sim, porque a segunda-feira era já a poucas horas e sempre dá para entreter a malta, passando uma ideia de “acção” sobre o fim-de-semana que tinha findado! Ou quiçá, mostrar às crianças um exemplo vivo e a cores dos perigos do nosso tempo, remetendo-nos ao papel de meros espectadores. A realidade supera sempre a ficção, portanto…

 

- “Com a breca! Mas será que não há uma alma que lá vá terminar com a coisa?” – interroguei-me.

 

Do meio da multidão, um sujeito surge a correr em direcção á cena em questão…

- “Vá lá! Finalmente!” – exclamei para comigo, mas tendo terminado este meu pensamento o suposto salvador agride um dos indivíduos, passando a ocorrência a ser “dois contra um”…

 

Lancei o paivante pelo ar e lanço-me a passo largo, larguíssimo, o mais largo que consegui em direcção a algo que vai contra tudo o que afianço e de encontro a tudo o que repugno.

Tantos fidalgos e patroas, tão correctos e veneráveis, acompanhados pelas suas probas linhagens, emanando grande ética e fortes princípios, e ninguém se moveu perante tal acontecimento…Meu Deus!

Entrementes, as atenções foram afastadas da cena pelo som estridente de pneus a derrapar sobre o asfalto para um veículo que acabara de se imobilizar junto á “arena”, e de dentro da mesma, um jovem trajando um pólo vermelho e um boné preto corre em resgate de um homem que jazia no chão abrasado por uma saraivada de socos e pontapés, sob os olhares cobardes de dezenas de pessoas.

Num só movimento resgata o homem do solo e arremessa os outros dois por terra, colocando-se entre os agressores, berrando palavras de ordem.

 

- “Um rapaz das pizzas!” – sorri eu ao reconhecer a farda que ostentava.

 

Ainda ouve uma tentativa de agressão por parte de uma das facções. Confesso que vi uma lâmina brilhar sob o sol daquele maldito Domingo, mas o puto não ia permitir mais escaramuças…não enquanto ele ali permanece-se!

 

A lamina desapareceu, assim como os personagens daquele cena digna de um filme de acção, ficando apenas na arena redonda o rapaz das pizzas…sozinho.

Quem passou depois de todo este espavento, apenas viu o puto das pizzas sobre a relva da rotunda, ficando com a ideia de que o rapaz não estava bom da tola…

 

De todas as almas que passaram por aquele ponto (e foram bastantes), apenas uma se deixou tocar pela barbara tela que se desenhava naquele sitio ao ponto de avançar estoicamente sobre a mesma.

Não se passeava como a maioria das outras gentes…laborava. No dia que Deus reservou para o descanso, este homem laborava em desrespeito desta directiva Suprema, mas honrando uma conduta que, a meu ver, o resgata deste forçado incumprimento

 

Que sentimento anima a alma da gente deste meu tão amado Portugal, o que é que nos move e o que é que nos prende.

Teremos mais medos que coragens, e se assim for, onde se esconde o povo valente e imortal? Trabalha numa pizzaria, ou num outro local que, lamento dizê-lo, pouco dignifica a nossa grandeza e opulência.

Tenho plena noção da complexidade deste mote e como tal abstenho-me de tecer mais comentários de cariz pessoal sobre o mesmo mas, de algo tenho íntegra fé, estou sujeito a que algo do género que acabei de relatar possa acontecer comigo, e como tal, rogo aos Santos que ocasionem a passagem de um “rapaz das pizzas” ou de um outro do mesmo calibre nessa hora de aflição, entregue ele pizzas ou não.

Aterroriza-me pensar-me num cenário igual e ser espezinhado sob o olhar impávido de dezenas de conterrâneos, desfalecendo lentamente na esperança que alguém me venha valer naquela hora…

 

- “Que Deus te proteja, “rapaz das pizzas” assim como tu vedaste a saúde de outros quando mais ninguém o fez”.

 

 

Inocêncio da Silva

 

 

P.S. Todo este incidente deu-se a escassos 30 metros da Esquadra mais proxima.

 

publicado por Inocêncio da Silva às 21:25

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