Dissertações e relatos de dois taberneiros sobre coisas mundanas...e não só.

05
Set 07

Segundo o dicionário:

 

1. Segurança íntima ou convicção do próprio valor;

 2. Segurança de alguém que crê em alguém ou alguma coisa; certeza;

3. Crédito;

 4. Ânimo;

 

Mas como se expressa tal distintiva no relacionamento humano? (leia-se “engate” ou “graxa aos superiores”).

E qual a verdadeira utilidade de tal característica?...

 

Ora vamos invadindo, vamos assentando, vamos pedindo porque aqui nesta nossa taverna, ninguém pia ou medita de goela seca…

 

Acabou de entrar pela nossa entrada dois casais, aparentemente amantes, mas que deixam transluzir algum desconforto quanto á companhia, e mesmo ao ambiente desta taverna. Sou levado a aprontar que se enamoram á pouco tempo, ou não é povo muito dado a ambiências onde ninguém sabe o seu nome…

Um dos machos entrou de carola elevada, mirar firme e porte nobre guiando pela mão uma cachopa de igual postura. Pela sombra surge um outro par, mais cabisbaixo, mais quedo no olhar, mais morno…apesar de ambos os machos serem da mesma compleição física, o segundo parece-me muito mais baixo.

 

Sentaram-se…

 

A aparente confiança que demonstrou o mais “alto” homem ao entrar na taverna, esbate-se agora perante a minha imponente figura…encarnou bem o personagem, com todos os pormenores e cuidados, mas faltou coragem para levar a cena ate ao fim.

 - “ Tem potencial, pois já conhece os traços…” – pensei para com os meus botões.

Enquanto pedia a sua birra, os braços da sua companhia envolviam-se no seu membro que mais perto se encontrava (braço direito), tal qual uma jibóia esganando a sua presa.

Também se deixara quebrar pelo meu olhar, e procurava algo que a acolhe-se, protege-se, que lhe desse segurança, confiança, nem que fosse por momentos…e o amante inspirava-lhe esse calor. Apesar de não ser o mais vigoroso homem desta terra, o seu carácter dava-lhe uma índole que inspirava confiança, conforto e alguma ousadia. Claramente a postura que adoptamos para nos apresentarmos assim que saímos de casa, pela fresquinha, diz e magnetiza positivamente o nosso dia/relação/actividade e afins…

Por outro lado, o outro macho que se assentava do outro flanco da banca, contrasta em larga margem com o seu parceiro masculino. Em verdade digo, que dificilmente a moça que o acompanha se manterá á sua beira, tal é o interesse que o outro macho lhe desperta (ou a sua confiança).

 Sim, talvez se faça acompanhar por ele em alguns passos das sua vida, mas com que motivo? Estima, solidarização ou mesmo pena? Nascerá algum pomo de condão de uma árvore plantada em tão ruim chão? É certo que as coisas não são tão lineares como eu as narro, mas a verosimilhança atemoriza a agudeza em abundância q.b…

Acredito que todo o homem tem latente em si a faculdade de se tornar aquilo em que ambiciona, seja mundano ou etérea, incluindo aquela índole que irradia bem-estar e confiança a todos os demais confrades…terá é que haver vontade e alguma sensibilidade para o fazer.

Adiante…

 

Conclui-se portanto que para que viva uma consistente afirmação social terá que haver confiança. E isto aplicasse a todos os campos do relacionamento social (para quem quer afirmação, como é obvio…), e apesar de latente em todos, por vezes encontrasse adormecido…portanto pode ser desenvolvido, deve ser desenvolvido. É uma capacidade que dá muito jeito nos tempos que correm, onde a disputa é cruenta.

A teimosia assemelha-se com a confiança, isto á vista desarmada, mas a diferença está nos fundamentos que uma tem e outra não.

A confiança argumenta a sua natureza, enquanto a teimosia está vazia de conteúdo e um dos rios que alimenta o seu caudal é o orgulho…o típico “não dar o braço a torcer”, tenha razão ou não.

É claro que sempre dá para a galhofa, pois quem é que nunca argumentou com alguém, e apesar de saber que o tipo até tem razão, só para ver até onde a sua convicção vai?...

Consegue-se ver a corja a vacilar quando seguramente afirmamos e justificamos a nossa deliberação, mesmo que seja da mais disparatada natura. Ah, mas com toda a integridade e porte, claro…

Para que se tenha uma ideia de como a confiança (ou a falta da mesma) se traduz no nosso quotidiano, deixo este exemplo: Os larápios que poisam nesta taverna, piam que quando elegem alguém para rapinar, preferem os cabisbaixos pois dali não virá muita ou nenhuma briga…dá que pensar, não?

 

 

 - “Então boa tarde e até á próxima…”- diz um dos casais ao atalhar pela minha fronte a caminho da porta. Aceno com a cachimónia e devolvo a despedida…repito o gesto ao passar o casal mais “baixo”, e ao que o macho me devolve um mirar fundo, tanto de respeito mas de algum convencimento. Parece que habita ali alguma força, alguma vida…está agora a começar a existência entre as multidões, e nem sempre a coisa é dócil e talvez dai o seu apago.

 Aquele olhar…faz-me lembrar alguém.

Alguém que conheci já faz alguns Invernos, e que guardou a alma na algibeira para um dia de chuva. Amadureceu, endureceu, e quando nasceu tornou o seu portador um dos mais íntegros, orgulhosos, confiantes e honestos homens que conheci…

 

Veio a chamar-se Inocêncio da Silva…eu próprio.   

publicado por Inocêncio da Silva às 21:13

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