Dissertações e relatos de dois taberneiros sobre coisas mundanas...e não só.

07
Mar 08

Muito se poderia dizer sobre a dúvida e a forma como ela nos condiciona ou nos dá alento…

Sim, alento, pois eu advogo que da dúvida nasce a apetecida felicidade que todos desejam em todo o seu fulgor.

O ser humano precisa da incógnita para ser feliz, da incerteza, do risco, da dúvida, em todas as expressões da sua vida e até onde os tentáculos da mesma alcançam.

Quem se lança à aventura para pôr fim a uma determinada dúvida, na verdade o seu intento é apenas o de a tornar mais firme, mais robusta, mais inatingível.

Não conseguimos vencer o desejo oculto de mostrar ao mundo e a nós próprios o quão inacessíveis estão as coisas sobre as quais duvidamos da existência, e não que as mesmas, por vezes, simplesmente não existem.

A felicidade repousa no desconhecimento completo sobre a nossa última hora, por termos noção que a mesma nos faz enlouquecer e perder a razão. Vivemos uma vida apenas com a certeza: que esta terminará um dia. Mas o facto de a desconhecermos é o que nos dá o desejo de perpetuar a nossa obra e espécie, as nossas relações, a nossa evolução e imprimindo nesta o que de melhor temos para ofertar.

Faz exaltar o que de melhor um homem tem no seu âmago, pois quando tudo é dúvida e breu, é nesse momento que mais um homem brilha e se sente completo.

Levamos dúvidas para todo o lado, mesmo sem que disso nos dêmos conta, inclusive para a cama, pois quem nunca imaginou que talvez fosse aquele o seu último sono?

E os intrépidos que procuram a todo o custo saciar o seu vício de adrenalina, não serão eles também uma expressão desse mesmo desejo, chegando a arriscar a vida por tal demanda? Levam ao limiar da sanidade uma saga que começou no momento do nosso primeiro fôlego e que só terminará no último.

Desconheço quem detenha todas as verdades e todas as certezas, mas tenho a certeza que decerto é alguém muito amargo e miserável, pois foi-lhe roubado o sal da vida.

Procuramos a dúvida onde ela não existe, e o facto de não a encontrarmos só incendeia ainda mais a crença da mesma e a alegria começa a surgir.

A ficção que aborda esta matéria vende milhões, tal é a nossa sede do (des)conhecimento, tal é forma que como perseguimos a ignorância, e neste molde atulhamos o crânio de mais dúvidas e ambiguidades.

Quem ignora, tem todas as portas abertas…quem tudo enxerga, as mesmas nem tão-pouco existem.

 

Precisamos da dúvida para que exista o derradeiro sentimento, aquele que estoicamente tem salvo a humanidade, século após século, e quem sem ele, acredito que nunca teríamos chegado a esta era: a Esperança. Sem ela, nunca existiria o ímpeto de vencer a tragédia quando tudo já sucumbiu, ou a vontade de ultrapassar o desejo piedoso de se deixar morrer, terminando desta forma inglória uma vida humana.

 

A dúvida nasce com a vida e morre com ela… e quem disto duvidar, mais douto e mais miserável torna quem sobre ela escreve.   

 


Inocêncio da Silva
publicado por Inocêncio da Silva às 15:40

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